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Durante este período, o bilhete Experiência Completa não estará disponível para compra nem utilização.
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Visite as exposições na Fundação, com destaque para a exposição de Paula Rego.
Almoço único no restaurante tradicional Sara Barracoa - Cozinha Regional.*
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Esta exposição assinala o Centenário do Nascimento de Fernando Lemos (Lisboa, 3 maio de 1926 – São Paulo, 17 dezembro de 2019), figura incontornável da Arte Portuguesa do Século XX, cuja obra atravessa fronteiras geográficas, linguagens artísticas e campos de pensamento.
No ano do Centenário de Fernando Lemos, a Fundação Cupertino de Miranda — Instituição com a qual o artista manteve uma relação profunda e contínua, — apresenta esta exposição como um gesto de homenagem e de memória ativa. Porque, como sabemos, “viver é ser lembrado”, e estas imagens continuam, hoje, a olhar-nos com a mesma intensidade e urgência.
Mais um português à procura de coisa melhor foi a forma irónica e lúcida com que Fernando Lemos sintetizou o seu percurso vital e artístico:
Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor.
Reunindo exclusivamente fotografias realizadas entre 1949 e 1952, período decisivo e fundador da sua obra artística, produzidas num curto mas intenso intervalo de tempo, apresentam-se um dos núcleos mais singulares da fotografia portuguesa do Século XX e um momento central da experiência surrealista em Portugal. Realizadas num contexto de forte inquietação artística, política e existencial, as fotografias de Fernando Lemos não são meros registos nem exercícios formais, mas construções mentais, encenações do inconsciente e do desejo, lugares onde a luz e a sombra se tornam instrumentos de pensamento. Próximas das experiências do automatismo surrealista, mas nunca entregues ao acaso absoluto, estas imagens resultam de um equilíbrio subtil entre o impulso e o controlo, entre o inconsciente e a consciência crítica.
Como o próprio afirmou, após o primeiro gesto automático, tanto a escrita como a fotografia passaram a ser dirigidas, programadas, assumindo plenamente a sua dimensão conceptual.
Retratos, autorretratos e figuras próximas do seu círculo de amizade surgem aqui como presenças inquietantes, suspensas entre luz e sombra, revelação e ocultação. O uso dramático da iluminação, os enquadramentos cerrados, os jogos de máscara e de identidade transformam o corpo e o rosto em território simbólico, refletindo desejo, ironia, angústia e humor. São imagens que não se limitam a ser vistas: olham-nos de volta, interrogam-nos, colocam-nos numa relação direta e perturbadora com o real.
Este núcleo fotográfico desenvolve-se paralelamente à intensa participação de Fernando Lemos no movimento surrealista português, nomeadamente no período que antecede a exposição de 1952 com Vespeira e Azevedo na Casa Jalco e a sua partida para o Brasil, em 1953. A fotografia surge, neste contexto, como um campo privilegiado de resistência e de liberdade, capaz de subverter os códigos da representação e de reabilitar a realidade, no sentido defendido por Mário Cesariny.
Embora breve no tempo, este conjunto de fotografias viria a marcar de forma duradoura a leitura da obra de Fernando Lemos e a sua inscrição na história da arte moderna e contemporânea. Como escreveu o próprio, que era “uma gota de água que se recusou ao dilúvio” — metáfora justa de uma obra que, sem nunca se dissolver no consenso, permanece viva, inquieta e luminosa.
No ano em que se assinala o Centenário de Fernando Lemos, a Fundação Cupertino de Miranda — instituição com a qual o artista construiu uma ligação profunda e duradoura — apresenta esta exposição como um ato de homenagem e de memória viva. Afinal, como sabemos, “viver é ser lembrado”, e estas imagens continuam hoje a interpelar-nos com a mesma intensidade e urgência.
Curadores:
Marlene Oliveira e Perfecto E. Cuadrado